
Ao propor como temática central “O Ator em Expansão”, a 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes apresentou de início dois longas representativos da relação do ator com o processo de criação de um filme. Na Mostra Olhares, Hoje, de Tata Amaral (SP), revelou a interpretação singular e surpreendente da atriz Denise Fraga, em papel dramático que a distancia de seu conhecido registro cômico de atuação. Na Mostra Vertentes, Djalioh, de Ricardo Miranda (RJ), precisou da colaboração direta dos atores Mariana Fausto, Bárbara Vida e Otávio III para o desenvolvimento dos personagens no roteiro.
Em Hoje, Denise Fraga interpreta Vera, uma ex-militante que se muda para um novo apartamento, comprado com a indenização da morte do marido guerrilheiro Luís (o uruguaio Cesar Troncoso) durante a ditadura militar. Premiado como melhor filme do último Festival de Brasília, onde Fraga também ganhou o prêmio de melhor atriz, o longa procura articular a questão pessoal da personagem com o contexto histórico, sem precisar remeter ao passado. “Neste cruzamento de tempos, há diferença de encenação e dramaturgia. O desempenho da Denise Fraga consegue fazer esta passagem de forma sutil”, pontua o crítico José Geraldo Couto.
“A construção do filme tem a ver com outro tipo de linearidade, onde as lembranças e a dor da ausência do marido eram convocadas. O que a Vera vivencia é um ritual de passagem”, explica a diretora Tata Amaral. Hoje tem vários pontos em comum com Um Céu de Estrelas (1996), primeiro longa da cineasta: o desenrolar das ações em um só local (o interior de um apartamento) e as personagens femininas marcadas pela figura do masculino são alguns exemplos. No entanto, muitas dessas coincidências não foram pensadas de forma consciente. “Há uma série de retomadas que só descobrimos depois que Hoje estava pronto. O corte da bochecha começa em Um Céu de Estrelas quando Dalva encosta a navalha no rosto do marido. Só com Hoje, o corte se faz e a bochecha de Luís sangra”, comenta Jean-Claude Bernadet, que fez o roteiro do filme.
Inspirado no conto Quidquid Volueris, que Gustave Flaubert escreveu aos 16 anos, Djalioh pensa o gesto do ator como pensamento político. “É um processo ritualístico, de preocupação com o corpo e com a lógica coreográfica dos atores. É um filme que se comunica pelos pés, um balé para mostrar o encontro da ciência com o desejo”, compreende o crítico Rodrigo Fonseca. No longa, Djalioh é um ser estranho, que sofre por amar Adèle, que está de casamento marcado com o primo Paul, pai de criação de Djalioh.
Como um jogo semelhante a Seis Personagens a Procura de um Autor, de Luigi Pirandello, os personagens de Djalioh narram como se estivessem ausentes da história e logo depois voltam a vivenciá-la. Adèle é interpretada por duas atrizes: Mariana Fausto – a racional – e Bárbara Vida – a emocional. “Passamos por um processo longo de leitura. Sou atriz de teatro e este é meu primeiro papel no cinema”, revela Mariana. Acostumada com o método de improvisação, Bárbara demorou a memorizar o texto, com trechos mantidos integralmente pelo diretor Ricardo Miranda. “Para memorizar, escrevia o texto em cadernos para evitar vícios de interpretação”, afirma Bárbara.
Reconhecido montador de filmes importantes do cinema novo, como Idade da Terra, do Glauber Rocha, o diretor Ricardo Miranda começou a estruturar Djalioh a partir do contato com as duas atrizes em uma primeira leitura do texto. “Estabelecemos um roteiro sem imagens, que foi sendo construído. Detesto a figura do preparador de elenco. Eu mesmo prefiro dirigir atores sozinho”, argumenta o cineasta. Para Mariana, o mais desafiador era chegar ao estado da personagem. “O Ricardo pedia muito que a gente ralentasse o texto, depois do trabalho suado de decorá-lo. O set de filmagem foi uma grande aula de cinema”.
* A repórter viajou a convite da Mostra.
Cinema brasileiro em foco
A programação da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes prossegue hoje com um debate que pretende gerar intercâmbio entre curadores de festivais internacionais acerca da imagem do cinema brasileiro, em especial, na Europa e na América. Os principais convidados são Anne Delseth, membro do comitê de seleção da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes; Paolo Moretti, representando o Festival de Cinema de Veneza; e Raymond Walravens, do Festival Internacional de Cinema de Amsterdam. Estes profissionais irão compartilhar as expectativas e as possíveis colaborações para difundir a produção audiovisual brasileira no exterior.
O longa da noite da Mostra Aurora é Corpo Presente, de Marcelo Toledo e Paulo Gregori (SP). O filme narra a história de três personagens: Cynthia, que trabalha como manicure em pequeno salão de beleza da Rua Augusta; Alberto, que é agente funerário e foge dos agiotas; e Beatriz que trabalha em uma fábrica em meio período e adora tatuagens.
Na Mostra Panorama, os curtas que serão exibidos são: Da Origem, de Fábio Baldo (SP); Dois, de Thiago Ricarte (SP); Nem a Mim, Nem a Ti, de Tomás von der Osten (PR); e Os Mortos-Vivos, de Anita Rocha da Silveira (RJ). Na Mostra Foco, competem Mais Denso que Sangue, de Ian Abe (PB); Máscara Negra, de Rene Brasil (SP); e Quando Morremos à Noite, de Eduardo Morotó (RJ).
SERVIÇO
O que: 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Quando: até 28 de janeiro
Onde: Cine-Praça, Cine-Tenda e Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes
Info.: www.mostratiradentes.com.br
P.S.: Matéria publicada originalmente no jornal O POVO em 25.01.2012
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